2# REPORTAGENS setembro 2014

     2#1 CAPA  UM FOCO PARA CHAMAR DE SEU
     2#2 CRISE  POR QUE EST FALTANDO GUA?
     2#3 CINCIA  A MENTE DE ARTUR AVILA
     2#4 SOCIEDADE  POLTICA SEM MORDOMIA
     2#5 ZOOM  INFNCIA ARMADA
     2#6 CINCIA  A ERA DOS MOSQUITOS TRANSGNICOS
     2#7 NATUREZA  VELHA, PESADA E CLONADA
     2#8 ATUALIDADES  TAPETES DE GUERRA
     2#9 TECNOLOGIA  PERDIDOS NO ESPAO

2#1 CAPA  UM FOCO PARA CHAMAR DE SEU
Para desempacar, no basta se concentrar, no basta se concentrar.  preciso aprender a dividir tarefas, abusar da agenda e combater distraes. Muita coisa? Pois funcionou com o autor deste texto. E pode funcionar com voc.
TEXTO Alexandre de Santi

ENTO, VOC QUER TER FOCO?

     Bom, primeiro voc precisa de quatro folhas de papel e uma caneta. Tudo na mo? Agora, preciso que voc prossiga na leitura por 5 minutos seguidos. Afaste o celular e, se estiver em frente ao computador, desligue o monitor. E podemos comear. 
     Pegue a primeira folha e a caneta. Anote trs coisas que voc quer fazer at o fim da vida - realizaes realmente importantes, como aprender a tocar piano, correr a So Silvestre, publicar um livro. No topo, d um ttulo para essa lista: IMPORTANTE. Em outro papel, coloque as tarefas que voc precisa cumprir hoje. Todas mesmo - pagar aquela conta, marcar uma consulta, comprar po. Nessa, o ttulo ser URGENTE. Em geral, so coisas que ningum sente prazer em fazer - e so urgentes porque voc no lidou com elas e agora o prazo est estourando. Mas tudo bem. Anote essas tarefas chatas em algum lugar para que elas no ocupem espao no seu crebro e vamos adiante. Na terceira folha, faa uma lista do que voc precisa ou deseja resolver ao longo da prxima semana. Marcar uma reunio? Devolver um sapato emprestado por uma amiga? Buscar o resultado de um exame? Essa ltima folha ser batizada NO URGENTE. Acredite: voc deu o primeiro passo para organizar sua vida. 
     Grande parte das nossas frustraes ocorre porque ficamos imersos nas tarefas dirias e no temos flego para as outras. O que os especialistas dizem (e voc acabou de aprender)  que  preciso separa-las  fora. Um diferencial das pessoas produtivas  justamente o talento para dosar atividades das trs listas em sua rotina.  preciso comprar po, mas precisamos achar tempo para ir ao dentista e marcar a primeira aula de violo. Ou seja, mesclar atividades urgentes, importantes e no urgentes sem que voc acumule frustraes (ou fique sem po para o seu sanduche). 
     Sim,  um conceito simples. Mas basta rever a folha dos objetivos importantes para perceber um problema: no h como agir orientado por objetivos. Uma lista grandiosa dessas chega a ser intimidante: como realizar o sonho de correr a So Silvestre? Qual  o primeiro passo? Esses objetivos precisam se transformar em tarefas. Para isso, voc precisa de uma quarta folha. 
     Releia a folha intitulada IMPORTANTE e reflita sobre como tirar essas metas do papel. Exemplo: voc quer aprender a tocar violo. Voc at tem o instrumento, mas no sabe tirar um acorde. Uma boa tarefa seria buscar professores na internet. Ou consultar amigos que sabem tocar violo. Nessa folha n 4, que eu intitularia de A GALERA DELIRA! (manter o humor  uma tcnica para ir da frustrao ao entusiasmo), faa uma lista com trs a cinco tarefas que lhe ajudariam a tirar um sonho especfico do papel. E pode passar esse sonho da folha de IMPORTANTES para NO URGENTES. 
     Avanamos bastante. Voc j organizou a vida de uma forma que muitas pessoas nem sabem por onde comear. Ao eleger prioridades, voc para de se preocupar com as tarefas descartadas. Reduz o nmero de informaes, organiza o movimento, orienta o Carnaval. E o foco surge nessa janela. 

AS GRANDES MINITAREFAS 
     Nosso crebro no evoluiu rpido o suficiente para lidar com as distraes modernas. Enquanto o volume de informao que nos atinge s faz crescer, nossa capacidade de process-lo segue a mesma. E, mesmo que voc no preste ateno em tudo, o processo de descartar o que no interessa j compromete parte do seu crebro. Um estudo da Universidade de Utah mostra que multitask  um privilgio: apenas trs em cada cem pessoas so capazes de cumprir vrias tarefas ao mesmo tempo sem perder eficincia. Ou seja, foco  um problema mundial. Mas tambm pode ser pessoal. Tem um minuto para ouvir minha histria? 
     Comecei a me interessar por tcnicas de produtividade em 2012, quando comprei o livro Driven to Distraction: Recognizing and Coping with Attention Deficit Disorder ("Dado  distrao: reconhecendo e lidando com o distrbio do dficit de ateno", sem edio brasileira). No foi uma escolha casual: quatro anos antes, eu tinha sido diagnosticado com transtorno do dficit de ateno e hiperatividade (TDAH). A partir da, passou a fazer sentido a dificuldade que eu tinha para me organizar estudar e ler. Em resumo, um procrastinador serial. Voc provavelmente no tem TDAH, e esta matria no pretende curar ningum. Mas voc provavelmente j experimentou seus sintomas: distrao, falta de foco, dificuldade para se planejar. No sou nenhum exemplo de superao, mas, se voc est lendo esta reportagem na edio de setembro da SUPER, significa que as tcnicas deram certo. Terminei no prazo. 
     Talvez voc j tenha percebido meu truque. Estou dividindo uma tarefa (a leitura desta matria) em minitarefas. E tambm estou apontando o objetivo final, aonde voc vai chegar. So tticas complementares que se valem de um cacoete milenar: nossos ancestrais (e seus crebros) preferiam atividades de recompensa imediata, como caar, em detrimento das que recompensavam s a longo prazo, como guardar lenha. Esse mecanismo at hoje nos faz procrastinar: adiamos tarefas de benefcio distante (estudar para uma prova) em favor do prazer instantneo (o joguinho viciante da vez). 
     Para Piers Steel, autor do livro A Equao de Deixar para Depois, a melhor estratgia  usar essa herana procrastinadora a nosso favor. Escrever ou ler um texto de dez pginas (o meu e o seu desafio neste momento) pode ser intimidador; mas, subdividido, o desafio se torna mais gratificante. Completar cada parte d uma sensao de recompensa - e, quando voc menos percebe, est tendo satisfao imediata em uma tarefa de longa durao. 
     At que ponto  possvel dividir projetos em minitarefas? No h uma medida ideal, mas Steel sugere que uma tarefa comum possa ser quebrada em at cinco pedaos. "Alugar apartamento" fica mais fcil quando dividido em: 1) escolher um bairro; 2) vasculhar sites e ruas; 3) marcar visitas aos apartamentos favoritos; 4) pesar prs e contras e eleger um imvel; 5) mandar proposta para a imobiliria. Ficou at fcil se mudar. 
     Alm disso, minitarefas tm de cumprir alguns requisitos. Tm de ser objetivas, para voc no ficar na dvida se ela foi executada ou no. "Comer melhor de manh"  uma tarefa ruim porque no deixa claro o que  "melhor". Tente assim: "No caf da manh, comer uma banana e trs fatias de melo". Tambm  bom que minitarefas sejam curtas, garantindo o barato das recompensas peridicas. A chatice de fazer uma mala  aliviada quando dividida em "escolher a mala", "selecionar roupas" e  "colocar roupas na mala". Tambm  importante que os pacotes dirios de tarefas faam sentido. No faz sentido dar OK em "escolher a mala" e "selecionar roupas" num dia e deixar "colocar roupas na mala" para o dia seguinte - voc vai dormir com a sensao de que deixou algo incompleto. Em projetos que duram vrios dias (como escrever a capa da SUPER), o sentimento de vencer etapas permite a voc descansar de verdade. Mais importante: lembre-se de que so as tarefas que voc decidiu fazer. "Estamos mais aptos a prestar ateno se for uma ateno que escolhemos", afirma o guru da produtividade Michael Hall, autor de livros como The User's Manual for the Brain ("O Manual do Usurio do Crebro", sem edio brasileira). 

OLHO NO ALVO 
     Prximo passo: espalhar tarefas URGENTES e NO URGENTES em uma agenda. Sim,  bsico demais. Bsico como pedir para algum comer mais frutas: todo mundo sabe que  importante, e quantos colocam em prtica? Acostume-se: a partir de agora, voc vai passar o dia inteiro com a agenda aberta. 
     Mas seja realista: voc no vai se tornar hiperprodutivo a partir de amanh. "O ponto ideal  quando voc tem confiana para encarar projetos difceis, mas no esquece que eles so difceis", diz Steel.  Inclua trabalho suficiente para saber que no h muito espao para distraes, mas no lote o dia a ponto de ficar ansioso (emoes negativas prejudicam o foco, como voc ver mais tarde). O problema das minitarefas  que, muitas vezes, elas so to micro que perdemos a noo do macro, de como elas contribuem para atingirmos nossos objetivos e organizar nossas vidas. Em mais quatro minutos, vamos falar sobre como devemos manter nossos desejos no horizonte. Veja o meu caso: estou sendo disciplinado na ltima semana porque preciso viajar no sbado. Tenho um evento de famlia no interior e no quero faltar. Essa  a minha motivao nesta semana. 
     Levei cinco dias para escrever esses primeiros pargrafos e estou atrasado no meu prprio cronograma em dois dias. Mas at agora no sofri o meu antigo pnico: olhar para a tela em branco enquanto as horas corriam, inclementes. J cheguei a passar dois dias diante do computador sem conseguir escrever uma nica frase. No abandonei a profisso porque chegava um momento em que o pnico virava meu aliado, como o filsofo Alain de Botton descreveu brilhantemente: "O trabalho finalmente comea quando o medo de no fazer nada supera o medo de fazer mal feito". Subitamente, entrava em hiperfoco, que  uma habilidade comum aos portadores de TDAH. Me sentia como Chico Xavier, como se um esprito tivesse feito o trabalho por mim. O processo todo era muito dolorido. Quando terminava a sesso medinica, eu estava esgotado. Pudera: condensava todo o trabalho de uma semana em 48 horas  48 horas em que todo o resto da vida ficava parada. Repetia para mim: nunca mais. 
     Falhar no planejamento e procrastinar, para mim, significaria perder o evento e sofrer a ressaca do hiperfoco. Se isso acontecer, vou ficar com raiva de mim mesmo e, pior, das tarefas que estaro me impedindo de fazer o que eu realmente quero. Um cenrio perfeito para bloquear minha ateno. 
     Por isso, voc deve organizar as minitarefas de uma forma que tenha sempre seu propsito em mente. "O foco enfraquece  medida que a nossa clareza de propsito fica confusa. Ateno ocorre quando alinhamos os nossos desejos mais verdadeiros com as nossas aes. Quando fazemos isso, o foco vem fcil, acontece espontaneamente", diz Hall. Jogo futebol com os amigos todas as noites de quinta.  um dos pontos altos da minha semana. Mas, quando eu procrastinava e via prazos se aproximando, me apavorava e cancelava minha escalao com esperanas de trabalhar  noite  que raramente rendia, porque eu ficava frustrado e perdia o foco. Decidi que nunca mais ia cancelar o futebol por causa do trabalho. Resultado: fiquei altamente  disciplinado s quintas. Nunca mais precisei faltar ao jogo. Fortaleci o valor que aquele compromisso tinha na minha vida e orientei o meu trabalho em funo disso  e no o contrrio, como antes. 

APENAS UMA VEZ 
     Uso trs ferramentas para distribuir minhas minitarefas. Tenho um gerenciador de tarefas online que eu uso somente para as coisas de trabalho, o Asana. No passado, misturava tarefas profissionais e pessoais na mesma ferramenta. Percebi que era um erro: durante o expediente, as tarefas profissionais pareciam muito mais importantes do que as pessoais (o que  natural, j que eu estava em horrio de trabalho). Mas a eu desligava o computador do escritrio e no tinha nimo de ligar o computador em casa para lidar com os demais afazeres. A minha vida pessoal estava indo para o buraco. Decidi transferir as tarefas ntimas para um aplicativo no celular (o Any.Do). Assim, no dependia mais de ligar o computador em casa. Parece bobagem, mas a noo de propsito de cada tarefa ficou mais clara, e isso me deu mais vontade de resolv-las porque elas surgem no ambiente apropriado. 
     O meu terceiro sistema  uma agenda propriamente dita, a do Google. Ela fica aberta 100% do tempo no meu navegador. Se aparece um compromisso, anoto imediatamente em vez de deixar para depois (ou nunca, como aconteceu milhares de vezes). Aprendi isso no livro Driven to Distraction, no qual os autores e pesquisadores Edward Hallowell e John Ratey me apresentaram  Ohio. No, no se trata do Estado-pndulo que decide eleies americanas. Ohio  uma sigla para only handle it once, ou "lide apenas uma vez". 
     Funciona assim: se algum lhe entrega um relatrio chato e voc decide coloc-lo numa pilha sem criar uma tarefa com hora marcada para lidar com ele, vai lidar com o relatrio 1.002 vezes: quando o recebe; quando finalmente toma uma atitude; nas mil vezes que se lembrar dele com culpa entre uma ocasio e outra. Sem Ohio, voc gasta muito mais ateno para completar uma tarefa simples. 
     "Pilhas de papis servem como pequenas ameaas ao redor da mesa ou da sala, silenciosamente construindo culpa, ansiedade e ressentimento, alm de ocupar espao fsico", escrevem Hallowell e Ratey. No livro, os autores ligam o conceito s  papeladas indesejadas, mas adotei a sigla para qualquer tarefa chata, e no apenas burocracia. Tudo o que no merece mais do que um instante da minha ateno vira uma tarefa com prazo ou compromisso na agenda. Ao ler um e-mail de trabalho, j abro o gerenciador de tarefas Asana (que tambm passa o dia aberto no navegador) e anoto todas as obrigaes associadas ao contedo da mensagem. Vale tambm para tarefas domsticas. Se acabou o desodorante, anoto uma tarefa imediatamente no Any.Do - e o celular vai apitar mais tarde, me lembrando do problema em um horrio livre - e no no meio do expediente. Parece trabalhoso anotar tanta coisa. E, no incio,  mesmo. Mas logo se torna automtico, e voc percebe que o custo de anotar  menor do que recordar da pilha (fsica ou metafrica) e da consequente angstia de saber que precisa tomar uma atitude, mas sem saber quando. Ohio mudou a minha vida e j virou parte do vocabulrio dirio l em casa. 
     A minha meta era chegar ao final desta tarde com sete pginas prontas. Consegui? No, faltou uma. Mas avancei, j estou satisfeito.  uma recompensa que permite encerrar o dia mais tranquilo. 
     
AMBIENTE PR-FOCO
     Voltei de viagem e acordei devagar. Faz uma hora que estou empacado. J fiz todos os meus rituais para voltar a me concentrar. Exemplo: no estou usando relgio. H cerca de um ano, me dei conta de que no gostava da assimetria de ter um pulso mais alto do que o outro enquanto digitava. Bobagem? Sim. Mas me incomodava de verdade. Da, abandonei o relgio. O recado aqui no tem nada a ver com acessrios de vesturio, mas com informaes que roubam nacos da ateno. 
     Pronto, desempaquei. Lembrei que preciso de mais dois minutos seus para explicar que planejamento no basta. Voc precisa criar condies para ter foco. Sabe o ar-condicionado que voc s se d conta de que  barulhento quando  desligado? Vem um silncio incrvel. Pois voc precisa aprender a desligar tudo que rouba sua ateno. Comece eliminando problemas bsicos como fome, frio, qualquer desconforto fsico. O psiclogo Piers Steel afirma que temos entre quatro ou cinco horas de pico de energia; sem oito horas de sono, nem isso. Faa tambm o possvel para eliminar desconfortos emocionais: "Com emoes negativas fortes, como estresse, frustrao, raiva ou medo,  quase impossvel manter o foco", diz Michael Hall. 
     Passei cinco anos com uma dor inexplicvel na perna esquerda. Doa se eu passava muitas horas sentado na mesmo posio - ou seja, de segunda a sexta. Isso roubava minha ateno: me mexia na cadeira, procurava motivos para levantar. Nenhum mdico resolvia o problema. Um dia suspeitei de que era um problema nas costas que, de alguma forma, provocava a dor na perna. Bingo. Fiz fisioterapia e resolveu. Aprendi a fazer os exerccios em casa - sim, criei tarefas dirias no aplicativo do celular para no me esquecer. E a dor nunca mais voltou. Desliguei outro ar-condicionado. 

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS 
     Voc fez sua lista de tarefas, adotou o mtodo Ohio e cuidou do corpo e da cabea, mas segue empacado. Foi o que aconteceu comigo nesse trecho por dias. Sempre que chegava aqui, ficava pensando nas frias e em um desconforto no joelho (trofu do futebol da ltima quinta). No se iluda: imprevistos e distraes vo bagunar a agenda. Por isso,  fundamental replanejar constantemente. E, se tudo der errado, replanejar tudo. 
     Eu no estava progredindo porque havia me esquecido de criar tarefas objetivas para concluir esse trecho do texto. Tambm no estava seguro sobre o que dizer. O planejamento inicial no servia mais. A ltima tarefa do projeto "Foco" era apenas "escrever trecho final". Isso no serve:  vago. Decidi  criar duas tarefas: explicar o poder que temos sobre as tarefas e a boa sensao de mandar o planejamento para os ares e comear de novo. Vamos l? 
     Saiba que voc tem mais poderes sobre suas prprias tarefas do que tem conscincia. Depois que elas esto na agenda ou no aplicativo, parecem imutveis. E, de certa forma, elas so imutveis. So compromissos que voc tem consigo mesmo - e com seus chefes, amigos, familiares. Ao mesmo tempo, boa parte das metas e atividades so escolhas essencialmente suas. Voc  um Deus das suas prprias tarefas. Voc tem o poder de cri-las, adapt-las e adi-las sempre que quiser - inclusive, como Deus, para descansar no stimo dia. 
     Lembrar-se disso transforma o replanejamento numa tarefa at divertida. Todo mundo fica um pouco chateado por fracassar no plano inicial - como eu estava agora. Mas isso no pode ser desculpa para navegar na internet sem rumo. Os prazos e as minitarefas esto submetidos a uma lgica que pertence a voc. Contanto que voc no estrague o planejamento dos outros, est livre para replanejar. E d um alvio saber que algumas tarefas no esto atrasadas. Elas apenas ainda no foram replanejadas.

RUMO AO FOGO
Muitas vezes, procrastinamos porque no estamos convictos de que estamos atacando as tarefas certas. Assim, seu crebro "sabota" o foco, lhe forando a pensar em coisas que voc no est fazendo, mas gostaria de estar. Aprenda a fugir dessa e de outras armadilhas nas prximas pginas. 

1- SEPARE O URGENTE DO IMPORTANTE
Urgente: tudo aquilo que gera punio caso voc no resolva no prazo estabelecido. Importante: tudo que ajuda a conquistar objetivos, sem prazo claro ou prximo. Algumas tarefas urgentes podem ser importantes. A diferena est em saber dosar, dando conta das pendncias e tambm fazendo o que traz satisfao. Muitos esto presos no acmulo de urgncias, enquanto as coisas importantes ficam apenas no plano do sonho.

2- FATIE O QUE  IMPORTANTE EM TAREFAS
Mesmo que voc crie uma lista de coisas importantes, h uma armadilha: objetivos no so tarefas. Um dos principais segredos do foco  aprender a transformar sonhos em aes prticas. Assim, voc tem clareza do prximo passo. "Falar ingls fluentemente"  intimidador. "Marcar aula de ingls  uma tarefa clara.

3- DIVIDA TAREFAS EM MINITAREFAS
Cumprir tarefas dispara a sensao de prazer. Use isso a seu favor criando tarefas pequenas. O crebro fica mais estimulado (e propenso a ter foco) quando sabe que poder ter uma recompensa no curto prazo e no ter de esperar dias, semanas, meses. Se voc est escrevendo um livro, no quebre o objetivo apenas em captulos. Fatie em pginas - ou at em pargrafos. 

4- ANOTE TUDO
Voc j passou por isso: senta para fazer algo, tenta se concentrar, mas a mente  invadida pela lembrana de outras tarefas. E voc tenta esquec-las, mas elas prejudicam a concentrao. A soluo  uma s: anote tudo isso, de preferncia colocando prazos para resolver ou voltar a pensar no assunto. 

5- CUIDE DO CORPO
Encaramos o foco como um assunto da mente, mas ele tambm vem de um corpo saudvel. Aquela dorzinha tira, sim, sua concentrao. Se dorme pouco, perde horas produtivas do dia seguinte. Por outro lado, se voc pegar no batente depois de ter feito academia, as tarefas no vo influenciar tanto o seu humor. Moral da histria: agende tarefas chatas na sequncia de uma sesso de exerccios. 

6- DESLIGUE FOCOS DE DESATENO
Est calor e o ar-condicionado est estragado? D um jeito nisso. O ambiente de trabalho  barulhento? Fuja para outra sala. Nem sempre temos controle do ambiente, mas, sempre que possvel, tente criar as condies mnimas para o foco.

7- ABRACE RITUAIS PRPRIOS
O ambiente de trabalho ficou legal? Hora de cuidar das suas manias. Se voc precisa de msica para se concentrar, capriche na playlist da estao de trabalho. Se o fone incomoda a orelha, livre-se dele. Se o sapato aperta, fique descalo. Cada um  refm de suas manias na hora de se concentrar. Portanto, leve-as a srio e crie o seu ritual.  um prazer pessoal e intransfervel que ajuda a desempacar.

! 
REPLANEJAR
Tudo falhou. Voc est atrasado e angustiado com o andamento das coisas. Calma: hora de reavaliar o planejamento. Jogue tarefas no urgentes para o futuro. Reduza as expectativas de concretizar grandes planos no prazo que criou. Pea ajuda caso esteja sobrecarregado. Voc no precisa se comprometer a planejamentos que no esto funcionando. O importante  adotar o hbito de repensar tudo, todos os dias. E no empacar. 

PARA SABER MAIS
A Equao de Deixar para Depois
Piers Steel, Best Seller. 2012.

Driven to Distraction: Recognizing and Coping with Attention Deficit Disorder
Edward Hallowell e John Ratey, Random House, 2011.

The User's Manual for the Brain
Michael Hall, Crown House, 2001


2#2 CRISE  POR QUE EST FALTANDO GUA?
Em 2015, s 29% dos brasileiros vo receber gua de forma satisfatria. O que significa que 145 milhes de pessoas vo ter pouca gua - ou nenhuma. Isso no pas que poderia abastecer todo o planeta. Se o Brasil  campeo mundial de gua doce, por que ela no chega s torneiras?
REPORTAGEM Camila Almeida 

1- A GUA POTVEL  ESCASSA
A gua do mundo
* 97,5% gua salgada
* 2,5% gua doce
Proporo de gua doce do mundo
1% nuvens, umidade do solo e outros
69% geleiras
0,5% rios e lagos
29,5% aquferos

MUNDO GLACIAL - As geleiras renem quase 70% de toda gua potvel. S a Antrtida concentra 90% do gelo do mundo. O restante est na Groenlndia, no rtico e nas montanhas frias.
NO EST FCIL - Apenas 0,5% de toda gua doce est nos rios e lagos, que so de fcil acesso. Mas, por isso mesmo, eles so mais fceis de poluir.
18%  guas de superfcie do mundo esto no Brasil.
OSIS SUBMERSO - Temos bastante gua doce nos lenis freticos, que so a principal fonte de abastecimento do mundo. 
1% dos aquferos do mundo est no Brasil.

2- NOSSOS RECURSOS NO SO APROVEITADOS
Distribuio da gua doce do brasil
81% rios e lagos
19% aquferos

PAS PRIVILEGIADO - O Rio Amazonas  o maior do mundo em volume dgua. E temos outros gigantes: dos 50 maiores rios, 11 esto no Brasil. Mas nossa demografia  complicada. As pessoas moram longe da gua. H muita concentrao no litoral e l h pouca gua doce. A geografia tambm no favorece: cadeias montanhosas separam as pessoas dos mananciais. 
DIRETO DO SUBSOLO - 48% do territrio brasileiro  repleto de gua subterrnea. Apesar de menos abundantes e menos acessveis, os aquferos so mais bem distribudos pelo Brasil do que os rios. Por isso, abastecem mais da metade da populao. 

4- NOSSAS GUAS SO POLUDAS
gua imprpria
7% rios e lagos poludos
93% gua de rios e lagos prpria para consumo
99% gua de aquferos prpria para consumo

TRAGDIA URBANA - Dos dez rios mais poludos do mundo, trs so brasileiros: Tiet, Guandu e Iguau. No Pas, 7% dos rios e lagos esto poludos a ponto de serem imprprios para consumo. O cenrio  muito mais dramtico nas reas urbanas: 44% das guas urbanas so poludas.
VENENO NOS LENIS FRETICOS - Os agrotxicos so os maiores responsveis pela contaminao dos aquferos. No Guarani, segundo maior do mundo, h vestgios de herbicidas usados na produo de cana-de-acar. Os lixes tambm preocupam, porque o chorume penetra a terra e contamina a gua. 
NO H UM NMERO exato da poluio dos aquferos. Mas eles esto bem menos expostos  contaminao do que os rios 

4- EXPLORAMOS MAL (E NO USAMOS)
Explorao
FICANDO PARA TRS - No ranking dos pases que melhor aproveitam seus recursos hdricos, o Brasil est na 86 posio, com 10,87 numa escala 100. O ndice leva em conta os ndices de reso, para minimizar a sobrecarga dos mananciais. Cingapura  o pas campeo. 
NOSSA GUA  DOS OUTROS - Ser um dos maiores exportadores do mundo tem um preo hdrico. S para produzir toda a carne e os gros que exportamos em 2013, gastamos 112 trilhes de litros. Essa gua que enviamos para fora do pas, por meio desses produtos,  chamada de gua virtual.

5- NOSSAS PERDAS SO EXCESSIVAS
Agua perdida na distribuio
50% gua que vai para o consumo
50% gua perdida
SISTEMA ULTRAPASSADO - As tubulaes so velhas - deixam escorrer metade da gua que transportam pelo caminho. E limitadas. Foram construdas entre as dcadas de 1940 e 1950, quando ramos 50 milhes de pessoas, quatro vezes menos que hoje.
PANORAMA DO CONSUMO - gua disponvel x gua consumida
102.701 m3/s  Disponibilidade hdrica
1.161 m3/s  gua consumida
1.212 m3/s  gua desperdiada
Com a nossa gua desperdiada, podemos abastecer uma populao de 932 milhes de pessoas, considerando que cada uma gasta 110 litros por dia, quantidade recomendada pela ONU.
OU SEJA, CONSEGUIRAMOS ABASTECER:
3 vezes a populao dos Estados Unidos
Amrica do Norte + Amrica do Sul
Europa + Amrica Central + Oceania + Etipia

6- AS PESSOAS NO SO PRIORIDADE
reas de consumo
9% POPULAO URBANA - Na rea urbana, as perdas so mais graves que a mdia nacional. Exploramos o suficiente para abastecer a populao, mas 80% da gua se perde nas tubulaes. 
1% POPULAO RURAL - So 30 milhes de pessoas (15% da populao) nas reas rurais. Apenas 33% das casas tm abastecimento. As outras captam gua de chafarizes, poos ou de cursos sem nenhum tratamento. 
72% AGRICULTURA - Para produzir 1 kg de soja, so 1.800 litros. E o mtodo mais usado, asperso (lanamento de jatos de gua), gasta mais ainda. Quase metade evapora antes de chegar ao solo. Gotejamento (gua pingada na terra) seria mais eficiente. 
EFICINCIA
Asperso 40% perda
Gotejamento 95% aproveitamento; 5% perda.

7% INDSTRIA - Para fabricar qualquer coisa  preciso gua. E gasta-se muito dela limpa em processos que no exigem tanta pureza. O reso no  uma prtica usual, mas, em tempos de crise, fica evidente que  possvel economizar. Em So Paulo, devido  estiagem e sob risco de racionamento, fbricas chegaram a economizar at 50% de gua com reso. 
11% PECURIA - O Brasil tem o maior rebanho de gado do mundo. Em 2013, exportamos 1,5 milho de toneladas de carne bovina para 130 pases. Haja gua virtual. 
GUA USADA NA PRODUO (de 1 kg em litros) 
Carne 15.500
Frango 3.900
Porco 4.800

7- A DISTRIBUIO  DESIGUAL
gua que chega para cada regio
3,5% NORTE
POPULAO MAL ABASTECIDA: 86%
O enorme potencial hdrico da regio parece confinado nas fontes. A gua s segue seu curso para as torneiras a depender da boa vontade poltica - que no existe. A infraestrutura  precria. 

14% NORDESTE 
POPULAO MAL ABASTECIDA: 83%
 a mais carente de gua, apesar de o Rio So Francisco ser o que mais abastece pessoas no Brasil, desembocando em 128 municpios. Quando a transposio for concluda, vai chegar ao semirido, rea de 980 mil km2 de escassez de gua e chuvas (equivalente a dez Pernambucos). 

5% CENTRO-OESTE 
POPULAO MAL ABASTECIDA: 78%
A regio  bem abastada: esto l o Pantanal e as bacias Amaznica, do Paran e do Paraguai. Tambm tem trs fartos aquferos: Guarani, Serra Geral e Bauru-Caiu. Mas os mananciais, especialmente nas reas urbanas, esto comprometidos pela poluio. 

62% SUDESTE 
POPULAO MAL ABASTECIDA: 61%
A extrema concentrao de pessoas resulta em conflitos pelo uso da gua. E o sistema necessrio para atender tanta gente exige maior complexidade no planejamento, na execuo e na operao. O pouco caso para lidar com a seca em So Paulo agrava ainda mais a situao dos reservatrios. 

15,5% SUL 
POPULAO MAL ABASTECIDA: 64%
Boa parte do Sul  abastecida por aquferos, com exceo de Santa Catarina. Mas os mananciais tm disponibilidade hdrica limitada e ser necessrio buscar novas fontes e ampliar os sistemas j existentes. A poluio tambm preocupa.

PANORMA DE ABUNDNCIA E ESCASSEZ
Projeo para 2015

NORTE
gua disponvel 62.064 m3/s
Necessidade de gua 45 m3/s
gua recebida 6 m3/s

NORDESTE
gua disponvel 2.738 m3/s
Necessidade de gua 136 m3/s
gua recebida 24 m3/s

CENTRO-OESTE
gua disponvel 14.603 m3/s
Necessidade de gua 39 m3/s
gua recebida 8 m3/s

SUDESTE
gua disponvel 5.476 m3/s
Necessidade de gua 275 m3/s
gua recebida 105,6 m3/s

SUL
gua disponvel 6.389 m3/s
Necessidade de gua 39 m3/s
gua recebida 26,5 m3/s

QUALIDADE DO ABASTECIMENTO
Projeo para 2015 (em nmero de habitantes)

RO
Satisfatrio: 392 mil
Necessidade de investimento: 907 mil

AC
Satisfatrio: 40 mil
Necessidade de investimento: 596 mil

AM
Satisfatrio: 417.063 mil
Necessidade de investimento: 2.668 mil

RR
Satisfatrio: 67 mil
Necessidade de investimento: 355 mil

PA
Satisfatrio: 385 mil
Necessidade de investimento: 5.780 mil

AP
Satisfatrio: 28 mil
Necessidade de investimento: 673 mil

TO
Satisfatrio: 555 mil
Necessidade de investimento: 742 mil

MA
Satisfatrio: 794 mil
Necessidade de investimento: 4.099 mil

PI
Satisfatrio: 339 mil
Necessidade de investimento: 2.059 mil

CE
Satisfatrio: 905 mil
Necessidade de investimento: 6.365 mil

RN
Satisfatrio: 439 mil
Necessidade de investimento: 2.250 mil

PB
Satisfatrio: 1.235 mil
Necessidade de investimento: 1.777 mil

PE
Satisfatrio: 2.169 mil
Necessidade de investimento: 5.472 mil

AL
Satisfatrio: 355 mil
Necessidade de investimento: 2.282 mil

SE
Satisfatrio: 564 mil
Necessidade de investimento: 1.254 mil

BA
Satisfatrio: 1.280 mil
Necessidade de investimento: 10.606 mil

MG
Satisfatrio: 11.962 mil
Necessidade de investimento: 6.398 mil

ES
Satisfatrio: 2.623 mil
Necessidade de investimento: 610 mil

RJ
Satisfatrio: 2.086 mil
Necessidade de investimento: 14.019 mil

SP
Satisfatrio: 12.387 mil
Necessidade de investimento: 30.178 mil

PR
Satisfatrio: 2.834 mil
Necessidade de investimento: 7.040 mil

SC
Satisfatrio: 1.808 mil
Necessidade de investimento: 3.793 mil

RS
Satisfatrio: 5.235 mil
Necessidade de investimento: 4.617 mil

MS
Satisfatrio: 1.335 mil
Necessidade de investimento: 829 mil

MT
Satisfatrio: 823 mil
Necessidade de investimento: 1.925 mil

GO
Satisfatrio: 879 mil
Necessidade de investimento: 5.031 mil

DF
Satisfatrio: 0
Necessidade de investimento: 2.856 mil

DRAMA MUNDIAL
No  s aqui: 50 pases enfrentaro crise no abastecimento at 2050. gua doce est cada vez mais cara e escassa. A tendncia  piorar nos prximos anos, com o aumento da demanda.
HOJE: 768 milhes de pessoas no tm nenhum acesso  gua tratada. Isso d quatro vezes a populao do Brasil.
3,5 bilhes de pessoas no recebem abastecimento de gua satisfatrio.
2050: 40% da populao mundial viver em reas de grave escassez.

A DEMANDA GLOBAL de gua deve aumentar 55% at 2050.
PRINCIPAIS MOTIVOS
Crescimento de produo industrial 400%
Gerao de energia eltrica 140%
Uso domstico 130%

DOIS DE CADA TRS HABITANTES DO PLANETA sero afetados pela escassez e descuido com a gua, passando sede ou contraindo doenas como clera e amebase.

BRASIL
MUDANAS CLIMTICAS
O futuro  incerto, mas previses sugerem aumento da temperatura e de extremos de calor e reduo das vazes dos rios. As reas mais vulnerveis so a Amaznia, onde os termmetros podem subir at 8C em 2100, e o Nordeste, at 5C. Chuvas tambm vo diminuir.

PREVISO DO TEMPO
Saiba o que deve mudar no clima brasileiro at 2100
Norte - Aquecimento; Ondas de calor; chuvas extremas; menos chuvas; 
Nordeste - Aquecimento; Ondas de calor; menos chuvas
Centro-Oeste  - Ondas de calor; menos chuvas; chuvas extremas; menos geadas
Sudeste - Aquecimento; Ondas de calor; menos geadas; chuvas extremas
Sul - Aquecimento; Ondas de calor; menos geadas; chuvas extremas

MISRIA, SERTANEJA
Na zona rural, 66,5% dos domiclios lanam dejetos em fossas rudimentares, cursos dgua ou direto no solo.

TRATAMENTO DE ESGOTO
A universalizao do sistema ainda est muito longe de acontecer no Brasil
Domiclios brasileiros 61,76%
So Paulo 78,4%
Maranho 1,4%

80% DA GUA utilizada no mundo no  recolhida nem tratada.

O CASO DO AQUFERO GUARANI
So 45 mil km3 de gua, com 281 m3/s disponveis para explorao. Apesar dessa importncia, o Guarani s abastece 56 cidades. A justificativa  sua estrutura confinada, o que dificulta a captao de gua - mas no impede. Em Ribeiro Preto (SP), por exemplo, ele est sobrecarregado.
20% dos aquferos do mundo so considerados sobre-explorados.

SOBRE (E SOB) A AMAZNIA
Temos o maior rio e o maior aqufero do mundo. As bacias da Amaznia, com 74% da gua do Brasil, tm disponibilidade hdrica de 74 mil m3/s - quantia que pode ser tirada da fonte sem que ela seque. J o aqufero Alter do Cho (com duas vezes mais gua que o Guarani) oferece 1.040 m3/s. Com os dois juntos, dava para suprir o Brasil 60 vezes.

ALTERNATIVAS
NO DEVIA FALTAR NEM UMA GOTA
Corrupo, falta de investimentos e inverso de prioridades so os motivos para a falta dgua.

     PROBLEMAS DE GESTO esto no leito da escassez brasileira. Nossa fartura fez com que nunca tivssemos o assunto como prioridade. Olhando para a Amrica do Sul, o Brasil est atrs de Bolvia, Peru, Argentina, Venezuela e Chile no uso sustentvel da gua, segundo ranking de desempenho ambiental da Universidade Yale. No saneamento bsico, tambm vamos mal. Estamos com ndices inferiores aos de Argentina, Chile e Uruguai. Isso custa caro. Em um ano, 400 mil pessoas so internadas no Pas por diarreia, causada pela m qualidade da gua, e custam para o SUS R$ 140 milhes. Gastos que poderiam ser poupados. Para cada dlar investido em saneamento, o retorno  de US$ 5 em custos evitados. 
     O problema no  s a falta de investimentos. Mesmo quando existem, podem ter seu curso alterado. Em abril, o Ministrio Pblico Federal denunciou desvio de verbas destinadas  construo de um sistema de abastecimento em Farias Brito (CE). J em Palhoa (SC), foi instaurada uma CPI das guas, para investigar desvios de R$ 10 milhes nos servios de gua e esgoto. Os atrasos na Transposio do So Francisco j dobraram o custo da obra. E foram encontrados R$ 776,2 milhes em sobrepreo e servios desnecessrios.

TEMOS QUE INVESTIR
At 2025, o Brasil deve investir R$ 22 bilhes em abastecimento.
(em R$ milhes)

NORTE
TOTAL DE INVESTIMENTOS: 1.952
Ampliao do sistema de gua superficial: 1400
Ampliao do sistema de gua subterrnea: 127
Captao de novas fontes de gua: 425

NORDESTE
TOTAL DE INVESTIMENTOS: 9.107
Ampliao do sistema de gua superficial: 2600
Ampliao do sistema de gua subterrnea: 777
Captao de novas fontes de gua: 5.730

CENTRO-OESTE
TOTAL DE INVESTIMENTOS: 1.710
Ampliao do sistema de gua superficial: 920
Ampliao do sistema de gua subterrnea: 55
Captao de novas fontes de gua: 735

SUDESTE
TOTAL DE INVESTIMENTOS: 7.456
Ampliao do sistema de gua superficial: 3.200
Ampliao do sistema de gua subterrnea: 256
Captao de novas fontes de gua: 4.000

SUL
TOTAL DE INVESTIMENTOS: 2.125
Ampliao do sistema de gua superficial: 880
Ampliao do sistema de gua subterrnea: 835
Captao de novas fontes de gua: 410

R$ 508 bilhes - Investimento necessrio para universalizar o saneamento bsico no Brasil.

BONS EXEMPLOS EXISTEM
Do Japo a Minas, veja as histrias de quem sabe usar a gua. 
     NO JAPO, no se desperdia gua: as pessoas se lavam em banheiras, que tm a gua compartilhada por toda a famlia. Em algumas casas, a gua do banho cai direto na lavanderia. Todas as descargas tm a opo de despejar dois nveis diferentes de gua. Nos lava-rpidos, toda gua gasta na lavagem dos carros  captada, tratada e reutilizada. Em Cingapura, pas com a melhor gesto de gua do mundo, todo o ciclo da gua  levado em conta: desde a coleta de gua da chuva at o tratamento da gua utilizada. No mundo, h 21 pases empatados no 1 lugar nos quesitos acesso  gua e saneamento, com 100% da populao contemplada. 
     Apesar de no fazer grandes investimentos em tecnologia inteligente para o uso de gua, o Brasil tambm tem bons exemplos. Uberlndia (MG)  a cidade campe do saneamento: 100% da populao  abastecida e 99% do esgoto coletado. E ainda conta com planejamento traado para os prximos 55 anos. 

FOHTES DE GUA POTVEL
Veja o que pode se transformar em gua pronta para beber.
1. GUA DO MAR - So 17 mil usinas de dessalinizao em 150 pases, gerando 950 mil litros de gua por segundo e beneficiando 300 milhes de pessoas. O Oriente Mdio  o maior dessalinizador de gua do mundo, com destaque para a Arbia Saudita. 
2. CHUVA - De 2011 at agora, foram entregues 665 mil cisternas no semirido. A gua captada no perodo de chuvas dura oito meses, se a famlia usar 70 litros por dia. Alemanha, Austrlia, Estados Unidos e Japo economizam 30% de gua dos sistemas pblicos com captao. 
3. ESGOTO - Santos, Vinhedo e Jundia (SP) atingiram 100% de coleta e tratamento. Dentre as capitais, Curitiba possui o melhor ndice em esgotos: dos 94% coletados, 99% so tratados. Porto Velho, capital de Rondnia, coleta s 2,7%. O tratamento  zero. 
4. CHORUME - E se, em vez de contaminar os lenis, o chorume ainda se transformasse em gua pura? Isso acontece. Nas estaes de tratamento especializado, 95% dele vira gua pura. Os outros 5% so resduos que podem ser aproveitados como adubo. 


2#3 CINCIA  A MENTE DE ARTUR AVILA
O responsvel pelo maior prmio da histria da nossa cincia tem um jeito particular de ver o mundo: ele vive dentro da Matrix. E de vez em quando volta de l para nos contar como so as regras do Universo.
REPORTAGEM Salvador Nogueira

     TODO MUNDO CONHECE algum que tem medo de dirigir. Difcil  encontrar quem opte pelo transporte pblico por medo de se ver distrado no trnsito por mapas unimodais ou operadores quasi-peridicos de Schrdinger.  o caso de Artur vila, o carioca que conquistou a primeira Medalha Fields para o Brasil, o Nobel da matemtica, maior prmio j conquistado por um cientista brasileiro. 
     Artur tem um jeito diferente de pensar sua cincia. E contradiz as noes que costumamos ter de um matemtico profissional. Difcil apagar a imagem caricatural de um sujeito com o cabelo desgrenhado, escrevendo furiosamente equaes. 
     Artur no. Ele no gosta de colocar as contas no papel na hora de pensar o cerne dos problemas matemticos em que trabalha. Prefere, em vez disso, imagina-los na cabea, ainda que precise simplific-los. "Papel  fora bruta. Na cabea no d para manipular objetos muito grandes, e isso me obriga a fazer contas mais simples", afirmou, numa entrevista concedida  revista Piau quatro anos atrs, ento j despontando como um prodgio. 
     Mas, afinal, o que  um objeto matemtico? Pode ser uma equao, um grfico ou mesmo uma figura geomtrica. Obviamente, ns, pobres mortais, vamos nos limitar a coisas como x = 2y, o raio de uma circunferncia ou o lado de um quadrado. A capacidade de abstrao de vila vai bem mais longe, claro. Ele consegue imaginar e manipular na mente objetos absurdamente mais complicados, como os mapas unimodais mencionados l no comeo. 
     Com essa tendncia natural de "olhar para dentro", no surpreende que Artur tema perder a concentrao em meio ao tdio do trnsito e ocasionar um acidente caso se dispusesse a dirigir. Em contrapartida, esses mesmos objetos se tornam companheiros inseparveis durante trajetos feitos com o sistema de transporte pblico. O matemtico diz j ter tido muitos lampejos para solucionar problemas enquanto andava de metr. 
     Artur tambm no aprecia se afundar em livros, lendo extensos trabalhos de colegas para prosseguir em seu trabalho. Se precisa se inteirar de uma questo, prefere conversar diretamente com seus colaboradores, mesmo reconhecendo que a comunicao verbal , para muitos matemticos, quase um empecilho para que consigam transmitir ideias uns aos outros. Casado e sem filhos, vila tambm no l jornais ou revistas e tem pouco interesse pelo mundo que o cerca. Seu negcio  matemtica pura. 
     O pesquisador trabalha metade do ano em Paris, num escritrio do Centro Nacional de Pesquisa Cientfica da Frana. Cidado francs desde o ano passado, ele alterna perodos na Europa com estadias no Instituto Nacional de Matemtica Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro, onde obteve toda a sua formao acadmica (vila concluiu o doutorado aos 21 anos, no Impa). Mas o principal local de trabalho dele, seja neste ou naquele continente,  o lado de dentro da cabea. 
     Artur passa horas e horas girando objetos matemticos dentro da imaginao, reparando nos detalhes, procurando padres. E diz no ter nenhum medo de se esquecer desses detalhes todos. Pode ir dormir e, quando acorda, volta para dentro da mente e o objeto continua l, em toda a sua riqueza de detalhes. E a est justamente um dos "superpoderes" dele. 

DA PARBOLA AO CAOS 
     O brasileiro  um especialista em sistemas dinmicos, ou seja, sistemas que so regidos por regras matemticas e evoluem com o passar do tempo. O padro das rbitas dos planetas ao redor do Sol, por exemplo,  um sistema dinmico. Apesar de seu ordenamento e estabilidade, o Sistema Solar j  um baita pepino para se tratar em termos matemticos. Mas Artur trabalha com sistemas dinmicos ainda mais complexos. Sua predileo  por aqueles que, eventualmente, podem se tornar caticos, completamente imprevisveis. 
     Para visualizar, pense na forma como um vrus de gripe se espalha. Podemos dizer que duas coisas bsicas vo afetar sua presena numa populao ao longo do tempo: o nmero de pessoas disponveis para ele infectar e o nmero de pessoas que j foram contaminadas e que, portanto, tm anticorpos, de modo que no voltaro a pegar aquele vrus em particular. 
     Imaginando a evoluo desse processo ao longo do tempo, temos uma curva em forma de parbola: a quantidade de vrus vai aumentando, atinge um ponto mximo e depois comea a declinar, conforme tem mais gente com defesa imunolgica contra ele do que vtimas indefesas. Essa curva em parbola  um exemplo dos tais "mapas unimodais". Mas at a no temos nada demais: s um padro de evoluo comportado, estvel, previsvel. 
     S que tem uma outra coisa que pode influenciar esse processo: o grau de virulncia, ou seja, o quo eficaz  o vrus em se espalhar. Se a virulncia for muito, muito alta, o padro de espalhamento do vrus tende a se tornar catico: no d mais para saber quando ele vai comear a declinar. Ou seja: aquele padro ordenado e previsvel vai para o espao. Loucura total. At pouco tempo atrs, porm, a ideia de que um mapa unimodal poderia apresentar esse comportamento insano era s uma suposio da matemtica. Faltava provar por A + B, matematicamente, que era isso mesmo. Artur provou  em 2003, num trabalho em colaborao com o brasileiro Welington de Melo e o russo Mikhail Lyubich. 

BEM-VINDO  MATRIX 
     Esse carioca de 35 anos  to conhecido por esse feito quanto pelas suas doses cavalares de intuio. Ele  guiado por um senso esttico que, combinado  sua capacidade analtica, aponta onde est a soluo de determinados problemas matemticos. Mais uma vez, intuio todos ns temos. Mas ela no costuma ser til em problemas matemticos simples, que dir nos complexos desafios enfrentados por profissionais do ramo. 
     Outro superpoder de Artur  o de ser um gnio multitarefa. Ele  frequentemente chamado para ajudar em problemas de vrias reas da matemtica, ou at de disciplinas vizinhas, como a fsica. So aquelas questes cabeludas, sobre as quais centenas de pessoas j queimaram anos de pestana sem encontrar sada. Artur olha o problema e, como o personagem Neo do cinema, v a Matrix  a abstrao que controla a realidade. Com esse vigor multidisciplinar, Artur atacou e venceu diversos problemas ligados a fenmenos dspares, como o embaralhamento de um baralho e a agitao das molculas num gs, para no falar em aspectos ultracomplexos da mecnica quntica (al, operadores quasi-peridicos de Schrdinger!). Mas nenhum desses casos prticos realmente interessa a ele. Como matemtico, sua nica paixo so os problemas lgicos envolvidos nessas questes. 
 isso que o move. Artur no est em busca de reconhecimento puro e simples nem das aplicaes prticas de suas equaes e parbolas. O que ele quer  encontrar o sublime, o xtase da resposta certa dentro de uma realidade de abstrao suprema. Uma realidade que s existe dentro da mente. 

A ARTE DE ABRIR TRILHAS 
     O trabalho de Artur e de seus colegas da matemtica pura seria, ento, nada mais que um capricho pessoal? De jeito nenhum. O avano da cincia depende de pesquisadores assim, que desenvolvem teoremas e provas matemticas por puro prazer, sem se preocupar com suas aplicaes. Alm de expandir o alcance do intelecto humano, eles esto, mesmo sem querer, construindo ferramentas que podem vir a ser muito teis no futuro. Eles abrem trilhas na cincia. 
     Tome Albert Einstein como exemplo. Ningum discute a revoluo que o fsico alemo causou na nossa compreenso do Universo, ao criar suas duas teorias da relatividade, a "especial" e a "geral". O que pouca gente discute  que Einstein no era um supremo matemtico. Na teoria da relatividade especial, em que ele determina que o tempo e o espao se contraem e se esticam de acordo com a velocidade, suas contas foram baseadas em equaes do fsico holands Hendrik Lorentz, um gnio da matemtica do fim do sculo 19. E a relatividade geral, que entrelaa a gravidade com a geometria em quatro dimenses do espao-tempo, no teria sido possvel no fosse a contribuio involuntria do matemtico alemo Georg Bernhard Riemann. Na dcada de 1850 (29 anos antes de Einstein ter nascido, portanto), Riemann desenvolveu uma estrutura geomtrica que inclua mais dimenses do que as trs da geometria clssica. Seu trabalho era puramente matemtico, como  o de Artur. Mas foi graas s equaes de Riemann que Einstein encontrou a estrutura matemtica adequada para formular sua teoria. 
     Da mesma maneira, Artur pode estar contribuindo hoje com revolues cientficas que ainda esto por vir. Mas ele no se importa com isso. 


2#4 SOCIEDADE  POLTICA SEM MORDOMIA
Quem so e como vivem os polticos da Sucia - os mais frugais do planeta.
REPORTAGEM Sarah Kern

     LUCIANO ASTUDILLO, 41, vai e volta do trabalho de metr. Mora num apartamento bem pequeno, que nem quarto tem. Dorme na sala, num sof-cama - que ele  obrigado a dividir com a filha quando recebe a visita dela. Ele mesmo limpa a casa e lava suas roupas na lavanderia coletiva do prdio, onde h apenas duas mquinas ( preciso agendar horrio para usar uma) e algumas tbuas de passar. Luciano tem a prpria tbua, um de seus raros luxos, pois prefere passar as roupas em casa. Apesar da rotina modesta, ele  uma das pessoas mais importantes em seu pas. Desde 2006,  deputado no Riksdag, o Parlamento sueco. Assim  a vida de um poltico na Sucia: o terceiro pas menos corrupto do mundo, atrs apenas da Dinamarca e da Nova Zelndia (no ranking, que  organizado pela ONG Transparncia Internacional, o Brasil est em 72. lugar). Os suecos so famosos pelas regalias que no do a seus representantes. 
     O Riksdag, que  o equivalente da Cmara e do Senado, tem 349 deputados. Alguns deles, cujas bases eleitorais ficam longe (pelo menos 50 km) da capital Estocolmo, tm direito a morar em apartamentos funcionais - mas com no mximo 45 metros quadrados. Dezenas de deputados vivem em quitinetes ainda menores, com 18 metros quadrados cada. E parecem no se importar muito com isso. "No acho que os polticos daqui estejam preocupados com esses detalhes. Temos que lidar com assuntos que afetam o pas, isso sim  importante" , diz o deputado Amir Adnan, do Partido Moderado. 
     Os polticos suecos levam uma vida frugal porque o pas foi o primeiro do mundo, em 1766, a criar uma lei de transparncia. Tirando os registros mdicos dos polticos, e informaes do exrcito, todo o resto pode ser acessado pela populao. Qualquer pessoa pode ver a declarao de Imposto de Renda dos parlamentares e ler seus e-mails e correspondncias oficiais. D at para saber onde cada um almoou, o que comeu e quanto gastou, tudo devidamente documentado com notas fiscais. Algo difcil de imaginar na realidade brasileira. "No Brasil, h a sensao de que os polticos no representam o cidado, que fazem as coisas por interesse prprio", diz a jornalista Claudia Wallin, que mora na Sucia h nove anos e est lanando Um Pas sem Excelncias e Mordomias, livro sobre a vida dos polticos suecos. 
     Os vereadores, que elegem os prefeitos, nem salrio ganham. Eles recebem apenas US$ 30 por ms, uma ajuda de custo para telefonemas. "Eu uso meu prprio celular. No custa tanto assim", conta no livro Christina Elffors-Sjdin, que  vereadora em Estocolmo. Os deputados recebem salrio, pouco mais que o dobro de um professor. No Brasil, essa diferena  de 15 vezes (veja no grfico ao lado). Isso sem contar os benefcios extras que os deputados brasileiros tm, como assistncia mdica, assessores particulares, carro, telefone e combustvel. 
     Na Sucia, os polticos no tm direito a nada disso. Para se locomover, eles usam transporte pblico ou seus prprios carros. O Parlamento tem apenas trs veculos oficiais, que esto disponveis para seu presidente e seus trs vice-presidentes  mas s em eventos oficiais. Os juzes do Supremo Tribunal da Sucia no tm direito a carro oficial. Um dos magistrados mais famosos por l, Gran Lambertz, vai e volta do Supremo usando bicicleta e trem. 
     Por ocupar o cargo mais alto do Estado sueco, o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt  uma exceo. Ele tem direito a um carro oficial e mora em um palcio de 1.195 metros quadrados, com faxineira uma vez por semana. Mas esse servio no sai de graa:  descontado de seu salrio, equivalente a US$ 22.500. Fredrik nunca deixa o gabinete sem antes colocar a prpria xcara na lava-louas. Todos os dias, ao chegar  residncia oficial, ele cozinha o jantar. E, antes de virar primeiro-ministro, tinha o hbito de limpar a prpria casa. Colocava fones de ouvido para escutar msica ou ouvir no rdio as partidas do seu time de futebol, o Djugarden. "No h nada de estranho em fazer isso", diz no livro. "A sensao de andar pela casa depois de uma faxina  fantstica", continua. Fredrik, que foi eleito em 2006, chegou a dar dicas de limpeza em um jornal local: "A parte de trs das camisas velhas  excelente para polir espelhos e vidros". Para quem no  sueco, a postura do primeiro-ministro pode soar demaggica. E talvez seja mesmo, at certo ponto. Mas como na Sucia praticamente inexistem empregados domsticos,  comum que cada pessoa faa as prprias tarefas. Quando era primeiro-ministro, o poltico Gran Persson disse que passava a prpria camisa social em apenas um minuto. Foi o suficiente para ser convidado a  provar a faanha ao vivo, em um programa de TV. Conseguiu (confira o vdeo em bit.ly/1AsuNGW). 
     O prprio Estado sueco financia as campanhas eleitorais, investindo cerca de US$ 63,3 milhes por ano. Cada partido recebe uma verba para cada vaga que ocupa no Parlamento. Isso cobre a maior parte dos gastos de campanha  e as doaes privadas so apenas 4,3% do total. No Brasil, as campanhas tambm recebem verbas pblicas, do Fundo Partidrio (este ano, sero R$ 364 milhes), mas 70% do dinheiro  privado. H quem diga que isso fomenta a corrupo, pois estimula a troca de favores entre doadores e polticos. 

O ESCNDALO DA BOLSA 
     Na maioria dos pases, os escndalos polticos envolvem muito dinheiro. Na Sucia, no  assim. Pouca coisa j  o suficiente para causar furor. Em 2010, a lder do Partido Social-Democrata, Mona Sahlin, escandalizou a sociedade ao ser fotografada portando uma bolsa Louis Vuitton no valor de 6 mil coroas suecas - o equivalente a cerca de US$ 900. A indignao foi tamanha que Mona acabou leiloando a bolsa e doando a renda a uma instituio. Outro caso polmico foi o da ex-deputada Mikaela Valtersson, que, mesmo morando perto de uma estao de trem, resolveu pegar txi: foram 43 vezes ao longo de um semestre, em 2011. "Tive que trabalhar at tarde muitas vezes. Foi um perodo extenuante, em que me senti obrigada a pegar txi para dar conta de trabalhar", disse Mikaela, acuada pela mdia,  poca. 
     Um episdio que ficou famoso no pas foi o nannygate, ou escndalo das babs. Em 2006, descobriu-se que, uma dcada antes, a ministra Maria Borelius havia empregado uma bab sem pagar os devidos impostos  ela dava o dinheiro "por fora". Questionada, Maria disse que tinha quatro filhos e seu dinheiro no era suficiente para ter uma bab com carteira assinada. Era mentira. Graas  Lei da Transparncia, jornalistas descobriram que a famlia Borelius faturava US$ 2 milhes por ano. Resultado: Maria durou apenas oito dias no cargo. 
     A modstia material dos polticos tambm  uma questo cultural. A Sucia  um dos pases mais igualitrios do mundo. J na Idade Mdia, os camponeses tinham lugar no Parlamento, fato indito na Europa da poca. Hoje, os impostos so bem altos (a maior alquota de Imposto de Renda  57%, contra 27,5% no Brasil), e o PIB per capita tambm: US$ 41 mil, contra US$ 12 mil no Brasil. Essa combinao permite que o Estado arrecade dinheiro suficiente para fornecer excelentes servios pblicos a toda a populao  e isso aproxima as pessoas. Claudia, que  casada com um sueco, conta que seus filhos estudam na mesma escola (pblica, claro) que os filhos de mdicos e de motoristas de nibus. "No existe a diviso que temos no Brasil", diz. 
     Mas comparar o Brasil com a Sucia pode ser injusto. O pas escandinavo  muito menor, e tem uma democracia muito mais antiga e slida. "O combate  corrupo tem avanado no Brasil, mas lentamente", afirma Cludio Weber Abramo, da ONG Transparncia Brasil. Para ele, cortar os benefcios que os polticos brasileiros recebem, tornando sua vida mais parecida com a dos deputados suecos, seria atacar apenas a ponta do iceberg. Tambm  preciso aproveitar mecanismos como a Lei de Acesso  Informao, que desde 2012 permite consultar dados de todas as esferas de governo (federal, estadual e municipal), para fiscalizar as aes dos polticos no Brasil. " preciso que haja gente buscando [essa] informao. Em primeiro lugar a imprensa, depois a academia e entidades empresariais. Mas a imprensa faz muito pouco isso, e o resto, menos ainda", diz Abramo. Colocar os polticos na linha  uma questo de vontade. E no s deles. 

DEMOCRACIA  SUECA
Os polticos suecos ganham menos que os nossos  e seus salrios so mais prximos do resto da populao

NA SUCIA
Um deputado ganha US$8.800 por ms
 o equivalente a 2,2 professores primrios (mdia de US$ 4 mil)
Ou
1,9 policial (mdia de US$ 4.6000)
Ou 
1,25 juiz (mdia de US$ 7.000)
Ou
1,6 cidado (mdia de US$ 5.400)

NO BRASIL
Um deputado ganha US$ 11.800 por ms
 o equivalente a
15 professores primrios (mdia de US$ 751)
Ou
12 policiais (mdia de US$ 953)
Ou
1,9 juiz (mdia de US$ 6.100)
Ou
14 cidados (mdia de US$ 841)

PARA SABER MAIS
Um Pas sem Excelncias e Mordomias
Claudia Wallin, Gerao Editorial, 2014


2#5 ZOOM  INFNCIA ARMADA
CRIANAS E ADOLESCENTES DA CRIMEIA, REGIO DISPUTADA POR RSSIA E UCRNIA, PASSAM AS FRIAS NUM CAMPO DE TREINAMENTO DE GUERRA. APRENDEM CEDO QUE SEU DEVER  VESTIR A FARDA E DEFENDER A NAO.
EDIO E TEXTO Camila Almeida

SOLDADOS EM MINIATURA 
O fotgrafo ucraniano Maxim Dondyuk registrou a rotina das crianas no campo. "Minha primeira impresso foi de que eles crescem assassinos profissionais. Depois, mudei de ideia: eles crescem defensores da Ptria", acredita. 

DIVERSO
Nos momentos de folga, as crianas participam de atividades ldicas: jogam xadrez, tomam banho de rio e fazem msica. 

GUERRA CONSTANTE 
A Crimeia protagoniza embates entre Rssia e Ucrnia desde sua fundao, no sculo 18, e tem conflitos com os trtaros, povo muulmano que ocupa a regio. So mais de dez geraes. 

ROTINA DE GUERRILHA 
Crianas e adolescentes entre 7 e 16 anos treinam na floresta e aprendem a lutar e atirar com diversos tipos de arma.

FRIAS CONFINADAS 
So duas semanas de acampamento, uma vez por ano. As crianas no so obrigadas a ficar, mas no pega bem desistir: a maioria tem pais militares. 

TRADIO ARMADA 
A Crimeia forma exrcitos o mais cedo que pode. Os oficiais repassam a experincia de combatentes para os mais novos e muitos deles seguem carreira militar. 


2#6 CINCIA  A ERA DOS MOSQUITOS TRANSGNICOS
Depois das plantas geneticamente modificadas, a cincia d o passo seguinte  e cria um animal transgnico. Seus inventores querem liber-lo no Brasil. Ser que isso  uma boa ideia?
REPORTAGEM Sara Magalona 

     VOC NASCE, CRESCE, chega  idade adulta. Em dado momento, sai por a em busca da sua cara-metade  ou, colocando a questo menos romanticamente, atrs de algum para satisfazer o impulso de fazer sexo (ah, os hormnios...). O problema, por assim dizer,  que voc carrega um segredo dentro de si. Um segredo terrvel, que vai destruir a sua prpria espcie. Parece um conto bblico, mas  real:  a histria do OX513, um mosquito geneticamente modificado que foi criado pelo homem com a misso de extinguir o Aedes aegypti e acabar com a epidemia de dengue. Depois de criar verses transgnicas de plantas como o milho e a soja, agora a humanidade modifica o DNA de um bicho e se prepara para liber-lo na natureza. Aqui mesmo no Brasil  onde fica a primeira fbrica de mosquitos transgnicos do mundo.  

PESTE ALADA 
     Mosquitos so criaturas terrveis. Estima-se que eles tenham sido responsveis por metade de todas as mortes de seres humanos ao longo da histria. Ou seja, mataram mais gente do que qualquer outra coisa. Isso acontece porque, como se multiplicam rpido e em enormes quantidades, so excelentes transmissores de doenas - como a dengue, que  causada por um vrus chamado DENV. O mosquito pica uma pessoa infectada, adquire o vrus, e o espalha para outras pessoas ao pic-las tambm. A dengue  uma doena sria, que pode matar, e um grande problema no Brasil: em 2013, o Ministrio da Sade registrou 1,4 milho de casos, mais que o dobro do ano anterior. Tudo culpa do Aedes aegypti. Ele  um mosquito de origem africana, que chegou ao Brasil via navios negreiros, na poca do comrcio de escravos. E hoje, impulsionado pela globalizao, levou a dengue a mais de cem pases (na dcada de 1970, apenas nove tinham epidemias da doena). Os nmeros mostram que, mesmo com todos os esforos de combate e campanhas de educao e preveno, o mosquito est ganhando a guerra. 
     Entra em cena o OX513A, que foi criado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ele  idntico ao Aedes aegypti  exceto por dois genes modificados, colocados pelo homem. Um deles faz as larvas do mosquito brilharem sob uma luz especial (para que elas possam ser identificadas pelos cientistas). O outro  uma espcie de bomba-relgio, que mata os filhotes do mosquito. A ideia  que ele seja solto na natureza, se reproduza com as fmeas de Aedes e tenha filhotes defeituosos  que morrem muito rpido, antes de chegar  idade adulta, e por isso no conseguem se reproduzir. Com o tempo, esse processo vai reduzindo a populao da espcie, at extingui-la (veja no infogrfico abaixo como o processo funciona). Recentemente, a Comisso Tcnica Nacional de Biossegurana, um rgo do Ministrio da Cincia e Tecnologia, aprovou o mosquito. E o Brasil se tornou o primeiro pas do mundo a permitir a produo em grande escala do OX513A  que agora s depende de uma ltima liberao da Anvisa. A Oxitec, empresa criada pela Universidade de Oxford para explorar a tecnologia, acredita que isso vai ocorrer. Tanto que acaba de inaugurar uma fbrica em Campinas para produzir o mosquito. 
     O OX513A j foi utilizado em testes na Malsia, nas Ilhas Cayman (no Caribe) e em duas cidades brasileiras: Jacobina e Juazeiro, ambas na Bahia. Deu certo. Em Juazeiro, a populao de Aedes aegypti caiu 94% aps alguns meses de 'tratamento' com os mosquitos transgnicos. Em Jacobina, 92%. As outras formas de combate, como mutires de limpeza, campanhas educativas e visitas de agentes de sade, continuaram sendo realizadas. "Ns no paramos nenhuma ao de  controle. Adicionamos mais uma tcnica", diz a biloga Margareth Capurro, da USP, coordenadora tcnica das experincias. H indcios de que o mosquito transgnico funciona. Mas ele tambm tem seu lado polmico. 

VIDA ARTIFICIAL 
     H quatro anos, quando os mosquitos da Oxitec chegaram  Malsia para uma das primeiras rodadas de teste, surgiu uma preocupao. Quando um organismo geneticamente modificado  introduzido na natureza, seja ele uma planta ou um animal,  complicado prever tudo o que pode acontecer  e muito difcil cont-lo se alguma coisa der errado. Em tese, os mosquitos transgnicos no tm como se espalhar. Trs a quatro dias depois de serem soltos, e de fazer sexo com uma fmea, eles simplesmente morrem. Seus filhotes no conseguem crescer, e tambm morrem. E a histria acaba a. Mas, e se o mosquito OX513A sofresse uma mutao, e se tornasse imune ao gene letal? Afinal,  assim que a evoluo funciona. Mutaes so inevitveis. "Todas as espcies agem para burlar os fatores que tentam extermin-las", afirma o bilogo Carlos Andrade, da Unicamp. Se o inseto transgnico conseguisse vencer o gene letal, ele poderia se reproduzir livremente  e se tornaria incontrolvel. Foi essa a preocupao do grupo ambientalista ingls EcoNexus, que enviou uma carta s autoridades da Malsia. "Os [insetos] transgnicos podem no ser completamente erradicados do ecossistema, com consequncias perigosas." A Oxitec diz que no h risco. Ela estima que at 5% dos filhotes transgnicos podero sobreviver ao gene letal, e chegar  idade adulta. Mas eles sero menores e mais fracos do que os mosquitos "selvagens", e por isso no conseguiro se reproduzir. Mesmo se conseguirem, em tese no tero nenhuma caracterstica que os torne mais perigosos que o Aedes comum. Alm disso, como eles so criados em laboratrio, seu DNA pode ser monitorado. "Os dois genes [que foram] inseridos so muito estveis. A linhagem OX513A foi criada em 2002, e at agora teve mais de cem geraes em laboratrio, sem nenhuma mudana nos genes inseridos", afirmou a empresa em nota enviada  SUPER. 

GUERRA DOS SEXOS 
     Os mosquitos machos se alimentam de frutas, e por isso no picam. Quem pica  a fmea, que precisa de sangue humano para nutrir seus ovinhos.  ela que transmite a dengue. Por isso, as fmeas de OX513A so separadas no prprio laboratrio. Algumas so mantidas em cativeiro, para reproduzir a espcie, e as demais so mortas (veja no infogrfico). Apenas os machos, que no picam, so liberados na natureza. 
     O processo de separao no  perfeito. At 0,2% dos mosquitos liberados so fmeas, que podem picar seres humanos. No  uma quantidade insignificante. A fbrica da Oxitec em Campinas tem capacidade para produzir 500 mil mosquitos machos por semana, podendo ser ampliada para 2 milhes. Isso significa que, devido  margem de erro, mil a 4 mil fmeas seriam liberadas a cada semana. E elas poderiam transmitir dengue. A Oxitec questiona essa possibilidade. "Para transmitir dengue, a fmea primeiro tem de pegar dengue", diz Sofia Pinto, supervisora de produo dos mosquitos. O ciclo da dengue, em que o mosquito pega o vrus de uma pessoa e o transmite para outra, leva cerca de dez dias. Um estudo revelou que em condies ideais, de laboratrio, as fmeas de OX513A podem alcanar 16 dias de vida. Mas, segundo a Oxitec, isso no ocorre na natureza  onde os insetos transgnicos no sobrevivem mais de quatro dias. Ou seja: em tese, as fmeas liberadas acidentalmente no teriam tempo de espalhar a doena. 
     O impacto ambiental  outra questo relevante. Uma eventual extino do Aedes aegypti no poderia acabar criando um desequilbrio ecolgico? "No acredito que vamos ter efeitos negativos, porque esse mosquito  uma espcie invasora", diz Glen Slade, diretor da Oxitec. O mosquito da dengue j chegou a ser erradicado no Brasil, na dcada de 1950, e s voltou nos anos 80 (vindo da sia). "No existe animal que viva nos criadouros desse mosquito, como caixas d'gua e vasos de plantas. E animais como lagartixa, sapo, pssaro comem qualquer inseto que voe, no s esse mosquito", explica Margareth Capurro, da USP. "Ele  uma praga. No faz parte do ecossistema.  um mosquito que vive somente nas reas urbanas, completamente associado ao homem", completa. Ou seja, os predadores naturais do Aedes no vo passar fome. Mas existe, sim, uma possibilidade de desequilbrio ambiental: o nicho ecolgico do Aedes aegypti ser ocupado por outra espcie. Um possvel candidato  o Aedes albopictus, que tambm transmite dengue. Tanto que a Comisso Nacional de Biossegurana condicionou a aprovao do mosquito transgnico a uma exigncia: a Oxitec dever monitorar a populao de Aedes albopictus, para detectar com antecedncia uma eventual proliferao dessa outra espcie. 
     Apesar de todos os porns cientficos, a crtica mais forte ao inseto transgnico est relacionada a algo trivial; a quantidade de mosquitos necessria. O OX513A  fisicamente mais fraco do que o mosquito natural, e por isso tem que ganhar em nmero. Para que a tcnica d certo, e o transgnico consiga acasalar com as fmeas (para gerar descendentes infrteis e acabar com a espcie),  preciso liberar uma quantidade enorme dele: dez mosquitos transgnicos para cada mosquito selvagem. Na prtica isso significa que, para tratar uma rea bem pequena, com apenas 10 mil habitantes, seria preciso liberar 2 milhes de mosquitos por semana durante a  fase inicial de tratamento, que dura de quatro a seis meses. Isso  alvo de crticas de alguns especialistas. "Liberar milhes de mosquitos numa rea de alguns quarteires urbanos  insano.  forar para dar certo", diz o bilogo Carlos Fernando Andrade, da Unicamp. "Para tratar 1 milho de pessoas, 10 milhes de pessoas, precisaramos criar muitas fbricas", admite Glen Slade, da Oxitec. Ou seja: a quantidade necessria de mosquitos OX513A para erradicar a dengue, num pas do tamanho do Brasil, pode acabar sendo inviavelmente grande. "Criar mosquito para depois matar mosquito no  nada inteligente. E, no caso de se usar transgnicos,  caro", afirma Andrade. A Oxitec estima que, para tratar uma cidade pequena, de 50 mil pessoas, o custo fique entre R$ 2 milhes e R$ 5 milhes no primeiro ano (em seguida, R$ 1 milho anual para manuteno). "Com boas prticas domsticas e do poder pblico, evitando gua parada, no se cria o vetor [o Aedes aegypti]", diz Andrade. 
     O OX513A pode acabar se mostrando uma soluo sofisticada demais para um problema que pode ser atacado com medidas mais simples. Talvez a vacina contra o vrus da dengue acabe funcionando e torne desnecessrio o uso de mosquitos transgnicos. Ou, quem sabe, o inseto geneticamente modificado venha a ser liberado em grande volume - e de fato consiga exterminar o Aedes aegypti. E a humanidade ter conseguido extinguir uma espcie usando outra espcie - que ela mesma criou. 

E A VACINA?
Seria muito mais fcil controlar a dengue com uma vacina. E ela pode estar perto de virar realidade. Num estudo feito na sia, 10 mil crianas receberam uma vacina experimental, fabricada pelo laboratrio francs Sanofi Pasteur. Entre elas, houve 56,5% menos casos de dengue. Ou seja: a vacina no  perfeita, mas parece fazer efeito. O problema  que s imuniza contra trs dos quatro subtipos de vrus da dengue  e os cientistas ainda no sabem o porqu. H outro estudo em curso, com 20 mil voluntrios espalhados por Brasil, Colmbia, Honduras, Mxico e Porto Rico. 

VIA CRCIS GENTICA
Como surgiu, nasce, vive e morre o mosquito transgnico.

1- CRIAO
* Usando uma agulha microscpica, cientistas injetam dois genes em ovos do Aedes aegypti. 
* O gene DsRed2 serve para identificar as larvas transgnicas (pois as faz brilhar se expostas a uma luz especial). 
* O outro se chama tTAV.  a bomba-relgio que vai matar o mosquito (mais sobre isso daqui a pouco). 
* Os ovos chocam, e os mosquitos transgnicos nascem. Sua espcie  batizada de OX513A. 

2- PROCRIAO
 Os mosquitos so mantidos em gaiolas, onde se reproduzem. Os machos fazem sexo com as fmeas. Cada fmea pe de 80 a 100 ovos.
 Os ovos so colocados em bandejas com o antibitico tetraciclina  que inibe a ao do gene tTAV.
 Aps oito dias, os insetos nascem. Primeiro viram larvas, depois pupas.

3- SEPARAO
 As pupas so colocadas num aparelho especial, que  coberto por microfuros.  
 MACHOS: so menores que as fmeas - e, por isso, s eles conseguem passar pelos furinhos. 
 FMEAS: ficam presas. Algumas so resgatadas e usadas para reproduo, mas a maioria  morta ( a fmea que passa dengue).

4- LIBERTAO
 Os machos so criados em gaiolas at ficarem adultos. Agora  hora de solt-los 
 Os mosquitos so liberados em vrios pontos da cidade.  preciso liberar muitos deles. 
 Numa cidade de 10 mil habitantes, 2 milhes de mosquitos por semana, durante quatro meses.

5- ACASALAMENTO
 O local fica cheio de mosquitos transgnicos. Por isso, eles acasalam com todas as fmeas. Para cada mosquito natural, h 10 transgnicos.

6- FILHOTE. E MORTE
 As fmeas engravidam, e colocam ovos.
 Mas aqui na natureza, diferentemente do que acontece no laboratrio, no h tetraciclina.
 Por isso, o gene tTAV entra em ao. Ele faz as larvas morrerem.
 Ou seja: os mosquitos no conseguem gerar filhotes.

7- RESULTADO
 Como no h descendentes, a populao de Aedes aegypti no  reposta, e vai sendo dizimada.


2#7 NATUREZA  VELHA, PESADA E CLONADA
A rvore mais velha do mundo  tambm a coisa viva mais pesada que existe.  uma, mas so vrias: conhecida como Pando,  uma extensa COLNIA CLONAL da espcie lamo-trmulo, nos EUA. Conhea este ancio peculiar em detalhes.
POR Emiliano Urbim, Marcelo Testoni, Flvio Pessoa e Alexandre Jubran

O QUE  O PANDO: Trata-se de um conjunto de troncos ligados por suas razes, que clona a si mesmo constantemente h milnios.

COMO COMEOU 
1- H cerca de 80 mil anos, no perodo Pleistoceno, nasceu o precursor da colnia - uma rvore masculina de lamo-trmulo.
2- Por uma combinao nica de permeabilidade e pobreza do solo, as razes geraram novos troncos - e as razes deles, novssimos troncos. O processo segue at hoje.

ONDE FICA
Registrado como indivduo nico em 1970, Pando fica no Bryce Canyon National Park, em Utah (EUA).

A ESPCIE
O nome do lamo-trmulo (Populus tremuloides), comum nos EUA e Canad, vem de ele tremer seus galhos mesmo com ventos muito fracos.

A MORTE LHE CAI BEM - Razes sustentam troncos que vivem 130 anos e so trocados por novos, surgidos da massa subterrnea.
C MENTE - O Pando produz sementes assexuadas - mas to pobres em nutrientes que, se no fossem as razes, ele no teria se reproduzido.
ECOSSISTEMA - No inverno, a colnia abriga animais. Insetos se alimentam das rvores mortas ou moribundas. Pssaros controlam pragas. 
NA ENCOSTA - As razes profundas tornam o cho mais resistente a deslizamentos e eroso - outro segredo para a longevidade do Pando.
TERRENO - Injetar toneladas de herbicida sob o solo talvez mate o Pando. Mas, fincadas a 100 metros do solo, as razes provavelmente resistiriam.
O TAL DE RIZOMA - Graas a essas terminaes vasculares, as colnias clonais crescem geneticamente idnticas, dividem nutrientes e permanecem ligadas.

ETERNO RETORNO
Colnia clonal  um grupo contnuo de plantas, liquens ou fungos geneticamente idnticos, todos com um ancestral comum. Podem se renovar para sempre - inclusive consumindo seus prprios restos.

MAIS COLNIAS CLONAIS
Uma colnia da alga Posidoma ocenica no Mediterrneo  candidata a mais velha: pode ter 100 mil anos. 
Rhizocarpon geographicum  um lquen que vive - e se espalha - em qualquer habitat. 
Old Tjikko  uma colnia de pinheiros suecos que se renovam h pelo menos 9.500 anos. 

PANDO DE DADOS
Os nmeros impressionantes do "gigante trmulo".
VARIADO
47 MIL TRONCOS formam o conjunto da colnia clonal. Tem em mdia 20 m de altura e 50 cm de dimetro.

ANTIGO 
80 MIL ANOS tm as razes. Elas so to antigas que sobreviveram a uma Era Glacial.

PESADO
5 MILHES DE TONELADAS  o peso total do sistema. Equivale a tudo que o Brasil colhe de trigo a cada ano.

LARGO
43 HECTARES  a extenso total do bosque. Cabem cinco Pandos no Parque do Ibirapuera.


2#8 ATUALIDADES  TAPETES DE GUERRA
Primeiro vieram os russos. Depois chegaram os americanos. A veio o Taleban. O Afeganisto vive em guerra h mais de 30 anos. Soldados, msseis, bombas, helicpteros, drones e terroristas viraram parte do dia a dia. E tudo isso foi parar num lugar inusitado: os tapetes.
REPORTAGEM Maurcio Horta, de Cabul (Afeganisto)

J ESTOU VELHO E DA VIDA NO ME RESTA NADA seno esperar", diz o vendedor, com uma voz moribunda, sentado no cho de sua pequena loja de tapetes na Chicken Street, corao do comrcio de Cabul, capital do Afeganisto. Depois de trs xcaras de ch e lamentos fluentes em ingls, alemo, italiano e francs, ele apela para seu ltimo argumento. Levanta a camisa, pega a minha mo e, conduzindo-a  sua barriga magra, murmura: ", como eu sofro..." E assim, aps ficar longos minutos ouvindo reclamaes do velho ("voc s me faz perder dinheiro"), o negcio estava feito por US$ 300. Comprei dois tapetes. Um belssimo turcomeno, com medalhes hexagonais bordados manualmente em l tingida com pigmentos vegetais. E o outro com uma estampa... estranha.  o mapa do Afeganisto e as Montanhas de Tora Bora, onde se acreditava que Osama bin Laden vivesse escondido. Em volta, bombardeiros B-52, helicpteros Apache e Chinook - um monstro voador com duas hlices -, pistolas, granadas e tanques. Ao lado de um caminho com msseis antiareos, est escrito "LQAEEDA". Na verdade, quer dizer "Al Qaeda". Escreveram errado. "Voc espera o que de camponesas analfabetas? Isso  apenas um tapete", resmunga o vendedor. 
     A tapearia, tanto quanto a negociao dramtica,  uma tradio no Afeganisto. De gerao em gerao, teceles de diferentes etnias e tribos desenham belos temas geomtricos, medalhes e animais. Mas, em 1979, essa paisagem mudou. O pas foi invadido pela Unio Sovitica - e nunca mais saiu da guerra. Em dezembro de 1980, 1,5 milho de afegos j tinham fugido. No ano seguinte, 3 milhes. As mulheres e os filhos de pastores turcomenos e balchis. que costuravam tapetes tradicionais, foram parar em campos de refugiados no Paquisto. Foi a que tudo mudou. Os camelos, as ovelhas e os pssaros que os balchis gostavam de desenhar foram dando lugar a temas blicos: tanques, blindados e helicpteros do Exrcito Vermelho, depois granadas, minas terrestres e msseis Stinger, fornecidos pelos EUA para que a resistncia afeg combatesse os soviticos. Os tapetes viraram verdadeiras cenas de guerra. E caram no gosto do fregues. 
     Peshawar, capital da provncia da fronteira noroeste, tem uma feira tradicional, onde se vendem muitos tapetes. E tambm vivia cheia de gringos, como trabalhadores de ajuda humanitria, jornalistas, espies e diversos outros estrangeiros atrados pela guerra afeg-sovitica. Leigos, que no entendiam nada de tapearia, mas tinham bastante dinheiro para gastar. Os vendedores perceberam que os tapetes com cenas blicas vendiam bem  e  comearam a encomendar cada vez mais deles. Afinal, para que comprar um tapete com temas geomtricos se voc tem em frente de si um desenho com tanques, fuzis AK-47 e mapa-mndi com bandeiras de pases existentes e imaginrios?  uma lembrana muito mais atraente. Um souvenir de guerra perfeito, com o tamanho certinho para caber na mala e mostrar para os amigos na volta para casa. 
     Refletindo as mudanas no mundo, e a esperana dos refugiados, os tapetes blicos ganharam um novo design em 1989. Do mapa afego, partia uma coluna de tanques soviticos em direo a Moscou, atravs da fronteira do Uzbequisto. O Exrcito Vermelho estava deixando o Afeganisto, num dos ltimos captulos da Guerra Fria. A paz, no entanto, estava longe de chegar. Ao sair do epicentro geopoltico mundial, o pas submergiu em mais uma dcada de guerra, dessa vez civil. Muitas pessoas continuaram em campos de refugiados - para escapar no de invasores, mas do terror que culminou no regime dos Taleban. Os teceles voltaram a se dedicar mais aos tapetes tradicionais. At que uma srie de atentados mudou a histria. 
     
SETEMBRO BORDADO
     As torres gmeas so atingidas por dois avies, mas no h drama. Sobre suas chamas, pairam as bandeiras dos EUA e do Afeganisto unidas por uma pomba da paz.  esse o estranho resumo dos atentados de 11 de Setembro, e da invaso americana no Afeganisto, em um dos tapetes  venda em Cabul. A nova interveno estrangeira, que se arrasta desde 2001, derrubou o regime do Taleban e fez 5 milhes de refugiados voltarem ao pas. Tambm trouxe centenas de milhares de soldados, funcionrios das Naes Unidas, trabalhadores de organizaes no-governamentais, jornalistas e aventureiros. Todos interessados em voltar para casa levando a guerra documentada em algodo e l - e, em alguns casos, revender os tapetes na internet cobrando at dez vezes mais. 
     Alguns temas continuaram os mesmos. Desenhos de armamento militar, tropas soviticas se retirando do mapa afego, mapas com bandeiras embaralhadas. Mas tambm h novidades um pouco menos blicas. Pela primeira vez, alguns dos tapetes retratam um heri: o comandante militar Ahmad Shah Massoud, que parte da populao considera uma espcie de Che Guevara afego. Ele lutava contra os soviticos e o Taleban, e foi morto dois dias antes dos atentados de 11 de Setembro. 
     Para seus vendedores, os tapetes so um excelente negcio. Por trs do velho frgil e reclamento com quem fiz a compra, est um comerciante bem-sucedido, dono de outra loja maior e de um casaro onde diz manter famlias de trabalhadores (a caridade  considerada uma obrigao para os muulmanos ricos). Tudo graas  renda gerada pelos tapetes. Eles so um jeito de tomar dinheiro dos ocidentais, recuperar um pouco do que tiraram do Afeganisto. E tentar exorcizar os fantasmas da guerra - nem que seja pisando neles. 

PARA SABER MAIS
War Rugs: The Nightmare of Modernism
Enrico Mascelloni, Editora Skira. 2009. www.warrug.com


2#9 TECNOLOGIA  PERDIDOS NO ESPAO
Onze anos aps o trgico acidente na base de lanamentos de Alcntara, o Brasil ainda caminha a passos lentos na corrida espacial. Mas caminha.
REPORTAGEM Dbora Nogueira

     EM OUTRO MUNDO, o ttulo deste texto poderia ser "Jornada nas Estrelas". Mas tudo mudou s 13h30 de 22 de agosto de 2003, quando o Centro de Lanamento de Alcntara, no Maranho, foi palco de uma tragdia. Naquela data explodiu o foguete VLS-1 trs dias antes da decolagem prevista, matando 21 tcnicos civis e alterando radicalmente a histria do programa espacial brasileiro. Foi preciso dar vrios passos para trs. Mas agora, aos trancos e barrancos, parece que voltou a andar para frente. E, com sorte, para o alto e avante. 
     A retomada inclui investimentos anuais de at R$ 1 bilho no setor aeroespacial, parcerias com potncias emergentes e a especializao em lanadores de satlites leves, nos quais somos campees. Por outro lado, R$ 1 bilho por ano ainda  pouco comparado  com outros pases, um dos principais acordos envolve um combustvel polmico e com a instvel Ucrnia, e no conseguimos lanar os lanadores que fabricamos. Mas, como diz o ditado, se voc est perdendo,  porque est no jogo. 

O QUE ESPERAR 
     Investir em espao  poder, tecnolgico e econmico [ver quadro "Para que serve um satlite"]. As atividades espaciais movimentam mais de US$ 280 bilhes por ano no mundo. O mercado espacial global cresce  mdia anual de 6%, graas ao surgimento de novas demandas de aplicaes e servios espaciais. Mas, alm de no participar com destaque nesse mercado, o Brasil investe pouco. Em termos de percentual relativo do PIB, o programa espacial brasileiro destina dez vezes menos recursos que a ndia e 30 vezes menos que os EUA. A previso de oramento da Agncia Espacial Brasileira (AEB) para 2014  de R$ 300 milhes. "Chegamos a R$ 1 bilho somando oramentos de outros ministrios", afirma o presidente da AEB, Jos Raimundo Coelho. Que pondera: "Nosso programa vai lento, mas no h necessidade de sermos to geis quanto Estados Unidos e Europa." 
     A baixa participao do Brasil nesse mercado e a tmida expertise tecnolgica e cientifica tm explicao em sucessivas polticas que no priorizaram esse setor no Pas. O acidente de Alcntara em 2003 foi um grande baque. Alm de matar tcnicos importantes, destruiu instalaes e interrompeu o mais audacioso projeto nacional na rea, a construo do Veculo Lanador de Satlites (VLS). 
     Mas ainda h o sonho de tornar Alcntara referncia internacional para o lanamento comercial de satlites. A localizao privilegiada na linha do Equador permite o uso mximo da rotao da Terra para impulsionar lanamentos com economia de combustvel de at 30%. Segundo o Instituto de Aeronutica e Espao, a infraestrutura foi refeita, e faltam apenas ajustes para lanar o VLS-1 ainda em 2014. Mas at o fechamento desta edio, em 19 de agosto, no havia lanamentos previstos. De qualquer forma, ainda deve ser finalizado um local para a decolagem do foguete Cyclone 4  fruto de uma cooperao incomum. 

PARCERIA POLMICA 
     Aps a tragdia de 2003, o Brasil formou um acordo com a Ucrnia para a produo de um veculo capaz de lanar grandes satlites. O acordo  questionado:  alm de no prever transferncia tecnolgica, sai caro  j custou R$ 500 milhes. A tecnologia utilizada  outro ponto nebuloso. A Ucrnia usa mtodos ultrapassados e abolidos em grande parte do mundo para a propulso do foguete. O propelente hidrazina  altamente txico e um acidente poderia causar diversas mortes e dano ambiental catastrfico. "Qualquer vazamento em algum dos estgios j  complicado.  um material perigosssimo", aponta o engenheiro e astrnomo Othon Winter, da Unesp. 
     Outra crtica  que a parceria com a Ucrnia acaba consumindo recursos que poderiam ser empregados na retomada do projeto VLS-1, que inclui um foguete feito no Brasil alm de quatro satlites e seus lanamentos. O projeto movimentaria toda a cadeia espacial do Pas. Na parceria com a Ucrnia, a construo do foguete  feita l e indstria e universidades brasileiras esto praticamente excludos do processo. "Por outro lado, poderamos dar o triplo de dinheiro para o DCTA (Departamento de Cincia e Tecnologia Aeroespacial), e eles devolveriam mais da metade. Eles no podem contratar gente sem concurso, no podem comprar equipamentos sem licitao internacional. reas como engenharia espacial precisam de dinamismo e h muitos gargalos em empresas pblicas", aponta Winter. 
     Por causa desses problemas burocrticos, a criao da Visiona, parceria pblico-privada entre Embraer e Telebrs,  uma esperana. Alm de no ter entraves de licitao, a Visiona tem como objetivo que o Brasil compre e gerencie um satlite. Seria uma novidade: hoje, o Brasil depende de satlites gringos. 

NO AR 
     Toda a comunicao de dados, TV e telefonia brasileira passa pelo satlite da Star One, subsidiria da Embratel, hoje controlada pelo mexicano Carlos Slim. O fato de o Brasil no ter soberania sobre sua prpria comunicao pode ter efeitos desastrosos - em qualquer conflito, ele poderia ter sua posio alterada e nossas comunicaes seriam prejudicadas. Dependemos de aparelhos estrangeiros para enxergar no espao desde 2010, com a desativao do CBERS-2b (l-se "Sibers"), que monitorava o desmatamento da Amaznia. Seu substituto, o CBERS-3, foi destrudo durante seu lanamento no fim de 2013. 
     O projeto CBERS faz parte de um acordo que o pas tem com a China desde 1998 para construo e lanamento de satlites de imagem. Com o acidente, o Brasil perdeu quase R$ 300 milhes e agora corre contra o tempo para adiantar o lanamento do CBERS-4 ainda em 2014. "No vejo como uma perda, o Brasil desenvolveu, testou, adquiriu know-how. Perdemos equipamento, mas ficamos com o conhecimento", diz Winter, da engenharia da Unesp. A parceria com a China, emergente da indstria aeroespacial, prev ainda um satlite meteorolgico. 

PROMESSAS 
     Enquanto isso, vivemos de previses. At 2018 esto previstos os lanamentos de mais seis novos satlites estrangeiros que vo se dedicar tambm ao territrio nacional. A Anatel deve ainda vender mais quatro posies orbitais, o que possibilita aumentar a capacidade de banda larga no Pas nos prximos anos. O Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) prev o lanamento de cerca de dez satlites at 2020.  esperar para ver. 
     Mas tambm temos exemplos inspiradores. A empresa Opto, de So Carlos, no interior de So Paulo,  apontada como uma das melhores do mundo em imagens do espao. O Laboratrio de Integrao e Teste (LIT) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)  apontado por especialistas como um centro de excelncia de conhecimentos e de infraestrutura. O foguete VSB-30, parceria Brasil=Alemanha para lanamento de misses cientficas, rema sozinho em seu nicho. Em 2015 chega o VLM-1 (Veculo Lanador de Microssatlite), 100% brasileiro. 
     O Brasil fabrica bons foguetes. Mas no consegue lan-los.  um comeo? 

PARA SERVE SATLITE 
Investir em satlites e foguetes, alm de ajudar a indstria de alta tecnologia, setores de pesquisa cientfica e empregar milhares de pessoas, influencia diretamente no cotidiano por causa de uma ferramenta poderosa: a informao. 

LOCALIZAO - Mais eficincia no monitoramento de fronteiras terrestres e martimas, alm de mapear desastres em zonas no populosas. 
METEOROLOGIA - Previso do tempo e de safras agrcolas, coleta de dados ambientais. 
SEGURANA - Satlites so os melhores instrumentos para localizar veculos roubados. 
COMUNICAO - Levar celulares e banda larga a zonas remotas. 
EVOLUO - O satlite  o cume de uma longa cadeia produtiva que injeta muito dinheiro na economia.


